Meus irmãos,
É com imenso prazer que trago o texto de abertura do nosso Blog, Café de Graça. O texto é de autoria de nosso irmão Mário Jorge e foi seu trabalho da disciplina HISTÓRIA DA IGREJA I, cursada no Seminário Presbiteriano Reverendo Ashbel Green Simonton. Uma ótima leitura a todos, que Deus os abençoe grandemente.
Felipe Eler
O texto abaixo visa tratar os principais aspectos da doutrina oriunda da reforma luterana como a Justificação Pela Fé Somente e a Predestinação concluindo com um breve comentário biográfico com base no texto de Costanza (2012).
De Simul a Semper: a Justificação pela Fé Somente
A justificação pela Fé somente é desenvolvida com proposito de dirimir o paradoxo dialético estabelecido entre a lei e o evangelho. Timothy George afirma que: “a polaridade lei-evangelho é entendida conjuntamente: tanto a lei quanto o evangelho são essenciais à salvação”. Conforme citado pelo autor, Lutero entendia que essa não era simplesmente uma doutrina entre outras, mas "o resumo de toda a doutrina cristã", "o artigo pelo qual a igreja se mantém ou cai". Lutero reconhecia também a dificuldade de se defender tal doutrina e ensina-la adequadamente. Tal fato acentua a relevância ainda maior da exposição do artigo.
Em meios aos desmandos da igreja com a controvérsia das indulgências em 1517 e suas constantes crises de consciência diante da Lei de Deus, ele rompera com a metodologia Escolástica a favor da teologia bíblica. O resultado disto se deu com a conclusão o perdão era um Dom divino, e não dependia da meritocracia humana. Evidentemente, a compreensão teológica do Dr. Martin Lutero foi fruto de um processo de reflexão o que se iniciou com os conselhos de seu mentor Staupitz, passando pelas ideias do nominalismo, misticismo alemão e por fim o processo de justificação gradual de Agostinho.
Antes disso, faz-se necessário entender o conceito de justificação na ótica da Teologia Medieval-Patrística. A doutrina cristã acabou que absorveu a compreensão ontológica do relacionamento do divino com o humano. Consequentemente a Soteriologia Patrística se baseava na salvação como processo de deificação que pode ser expressado nas palavras de Atanásio que diz: "Cristo tomou-se homem para que nós pudéssemos nos tornar deuses". Tal assertiva tem seus desdobramentos que podem ser apresentados como o processo de cura do ser humano que se encontra enfermo pelo pecado. Como afirma Timoty:
“Para Agostinho, também, a infusão da graça pelo sistema sacramental-penitencial da igreja continuava o processo da justificação iniciado no batismo. Nesta vida, o cristão é sempre um viator, um caminhante, que permanece suspenso entre a graça de Deus, revelada em Cristo e mediada pelos sacramentos, e o julgamento de Deus, pairando sobre sua cabeça como uma espada escatológica de Dâmocles, sempre questionando sua condição espiritual presente.Na teologia escolástica, a doutrina da justificação foi ainda mais aperfeiçoada por meio da distinção entre "graça real" e “graça habitual". A graça real concedia o perdão dos pecados reais, desde que declarados na confissão. Mas a graça real não era suficientemente forte para remover a culpa do pecado original ou para transformar o pecador ontologicamente. Isso requeria a infusão da graça habitual, que conferia à alma uma qualidade divina, capacitando a pessoa a realizar atos justos. A graça habitual era graça pura e não o resultado de méritos.”
Quanto a sua influência provinda do nominalismo destaca-se a distinção entre o poder absoluto e o poder ordenado. O primeiro significava que Deus poderia fazer qualquer coisa que não entrasse em contradição com a sua palavra e o ultimo, se refere aos instrumentos, mecanismos que Deus lança mão para cumprir a sua vontade e propósito. O resultado do nominalismo em sua teologia foi que Deus em sua encarnação, paixão e morte e ressurreição ofereceu Graça a todos que todos que fizessem o melhor possível. Indubitavelmente, o seu rompimento com as ideias de Beil foram fundamentais para a formação da doutrina da Justificação.
Quanto a influencia proveniente do misticismo podemos citar o teólogo dominicano Johannes Tauler , em 1516. O monge alemão entendeu a necessidade do homem amoldar-se à humilhação e aos sofrimentos de Cristo. Adicionemos, a ideia de passividade e submissão total do homem diante de Deus também como contribuição dos místicos. Tal pensamento culminava no resultado que a medida que o homem era justificado ele saia do estado de homo viator para homo deificatus.
O autor comenta corretamente que a doutrina da justificação foi resultado de um processo de reflexão que perpassaram linhas de pensamento que serviram como “aio”, para que o nosso reformador define-se a sua tese. Não obstante, ter se utilizado do aparato teológico agostiniano, uma das mais importantes contribuições foi o abandono da estrutura agostiniana de justificação. A ruptura de Lutero com Agostinho desdobrou-se na negação da justificação progressiva, isto é, “a imputação da justiça alheia de Cristo baseava-se não na cura gradual do pecado, mas na vitória completa de Cristo na cruz”, assim afirmou Lutero. Ou seja, quando nos apropriamos da Graça de Deus somos declarados justos.
A conclusão do Teólogo reforma do é que O cristão não é apenas justo e pecador ao mesmo tempo, mas é também sempre ou completamente justo e pecador ao mesmo tempo.
Deixem Deus Ser Deus: a Predestinação
O primeiro teólogo a formular uma doutrina sólida sobre a predestinação foi o Bispo africano Agostinho de Hipona. Sua teoria foi desenvolvida tendo como base a motivação da disputa teológica com o seu opositor Pelágio. Conforme as palavras de Timothy abaixo:
“Para Pelágio, a salvação era uma recompensa, o resultado das boas obras livremente realizadas pelos seres humanos. A graça não era algo diferente ou além da natureza, nem acima dela; a graça estava presente dentro da própria natureza. Em outras palavras, a graça era simplesmente a capacidade natural, que todos possuem, de fazer a coisa certa, de obedecer aos mandamentos e assim obter a salvação. Agostinho, por outro lado, via um grande abismo entre a natureza, em seu estado caído, e a graça. Profundamente cônscio da impotência total de sua própria vontade em escolher corretamente, Agostinho entendia a salvação como a livre e surpreendente dádiva de Deus: "Atribuo à tua graça e misericórdia, porque dissolveste meus pecados como se fossem gelo". Se, entretanto, a fonte de nossa conversão a Deus reside não em nós mesmos, mas somente no bom prazer de Deus, por que alguns reagem positivamente ao evangelho, enquanto outros o desprezam? Essa pergunta levou Agostinho à discussão paulina da eleição, exposta em Romanos 9-11. Aqui ele encontra a base para sua própria doutrina "cruel" da predestinação: da massa da humanidade decaída, Deus escolhe alguns para a vida eterna e omite outros que estão, assim, destinados à destruição, e tal decisão é feita independentemente de obras ou méritos humanos.”.
Percebe-se em função disto uma espécie de agostinianização do cristianismo que foi rompida posteriormente com o desenvolvimento da doutrina de Justificação pela Fé na ótica de Lutero estabelecendo assim um antagonismo com a perspectiva medieval sobre a matéria.
A formulação desta doutrina é tão relevante que a mesma foi responsável pela excomunhão do reformador o qual fez a seguinte declaração na disputa de Heidelber em 1518: "Depois da queda, o livre-arbítrio existe apenas nominalmente, e, enquanto alguém 'faz o que está em si', está cometendo um pecado mortal".
A cruz é a chave teológica para compreensão do mistério da predestinação. Observando por outro prisma, a relação da Graça de Deus com a questão da volição humana se finda a medida que Deus torna o homem livre para adora-lo em espirito e em verdade e ao próximo sem nenhuma intenção subjacente interesseira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário